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30/07/2010 | Aquicultura

O sertão, quem diria, dá peixe

Ao longo de décadas, a situação da Bahia em relação ao setor pesqueiro nacional tem sido motivo de ironias, por conta de o Estado possuir o maior litoral do país e ter que importar peixes, como faz, por exemplo, comprando em Santa Catarina. Todavia, esta parece ser uma realidade que começa a mudar, e não só no litoral, mas notadamente no interior, levando inclusive a algo “impensável”, que é produzir peixe em pleno sertão.

Repovoamento do Rio São Francisco com o surubim originário da região (que está em processo de extinção), promover a criação de peixes de água salgada no sertão e a construção de dois terminais pesqueiros em Salvador e Ilhéus, além da construção de quatro embarcações para a pesca oceânica são algumas das ações encabeçadas pela Bahia Pesca.

TERMINAIS - No último mês de maio, informa a Bahia Pesca, o governo do Estado e o Ministério da Pesca assinaram a ordem de serviço para a construção de dois terminais pesqueiros na Bahia – Salvador e Ilhéus –, com aportes de R$ 20 milhões. Considerada um marco divisório na pesca no estado, a ordem de serviço possibilita uma melhor infraestrutura para recebimento de grandes embarcações pesqueiras e capacidade para explorar o mar além dos limites da Plataforma Continental.

Para o presidente da Bahia Pesca, Isaac Albagli, as duas obras vão beneficiar diretamente mais de 30 mil pescadores, num trecho compreendido entre o Litoral Norte do estado até a região de Ilhéus, onde existem mais de mil embarcações motorizadas.

“Esses pescadores, além de contarem com um porto onde poderão abastecer suas embarcações, terão à disposição uma ampla infra-estrutura para comercialização e beneficiamento. Chega de ver nossos peixes sendo pescados em nosso litoral e desembarcados em outros estados, porque não temos condições de receber embarcações”, diz Albagli.

DIAGNÓSTICO - Recentemente, os membros da Câmara Setorial da Pesca e Aquicultura finalizaram o diagnóstico e as sugestões que serão entregues a Secretaria de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri) para a elaboração do Planejamento Estratégico da Agricultura. “Após várias reuniões realizadas na sede da Bahia Pesca (empresa vinculada à Seagri), chegamos a um consenso sobre os principais gargalos à competitividade do setor, e o que devemos fazer para a Bahia se tornar o maior produtor nacional de pescado”, explica Isaac Albagli.

As propostas de ações preveem as táticas a serem adotadas no curto e no longo prazo, em doze eixos estratégicos, a exemplo de assistência técnica, crédito ao produtor, comercialização, promoção e marketing, infraestrutura e logística, defesa agropecuária, governança, legislação e gestão da qualidade.

“Entre as sugestões que apresentaremos ao secretário Eduardo Salles, e que serão apresentadas na Conferência Estadual das Câmaras Setoriais do dia 9 de agosto (quando todas as cadeias produtivas do estado mostrarão o que foi debatido nas suas respectivas áreas), está a criação de uma política de incentivo fiscal sobre os produtos da atividade e a criação do Conselho Estadual da Pesca e Aquicultura”, conta Albagli.

Criação de peixes em meio a solo seco

Pescadores do sertão baiano estão produzindo peixes de água salgada, em meio ao solo seco e árido da região. A utilização de novas tecnologias para o aproveitamento da água salinizada de poços artesianos, que seria descartada, são utilizadas na criação do pescado.

A pesquisa para a viabilização da técnica, feita pela Bahia Pesca em parceria com a Companhia de Engenharia Rural da Bahia e a prefeitura municipal de Ipirá, teve seus primeiros resultados apresentados em junho, em Ipirá, quando ocorreu a despesca de 1,5 tonelada de peixes.

“A tecnologia de dessalinização era utilizada para a obtenção de água doce dos poços artesianos. O problema é que, ao realizar o processo, metade da água se tornava potável, mas a outra metade tinha o dobro de concentração de sal. Agora os pescadores do sertão baiano podem ter, com o material de um único poço, água doce e um criadouro de peixes de água salgada”, explica o presidente da Bahia Pesca.

Interior deve produzir 50 milhões de alevinos

As ações também estão sendo intensificadas no interior do Estado. A estimativa é que nas estações de piscicultura seja produzido, em 2010, mais de 50 milhões de alevinos, quase 10 vezes a produção obtida em 2009. As espécies produzidas são o curimatá, tambaqui, carpa, tilápia, pacu, matrinchã, surubim, piau e tambacu. “Os ribeirinhos do São Francisco são alguns dos beneficiados com as ações.

O Velho Chico receberá, até dezembro, 10 milhões de alevinos de um peixe natural de suas águas, mas que está em processo de extinção: o surubim, também conhecido como pintado. O Projeto Surubim visa repovoar a bacia do São Francisco com a espécie. O início do peixamento do Velho Chico aconteceu dia 29 de junho, na cidade de Santana e fez parte das comemorações do Dia do Pescador na Bahia.

O surubim é um peixe típico dessa região, mas sua população foi reduzida consideravelmente devido a sobrepesca e a práticas predatórias. Não podemos permitir que a espécie ‘baiana’ se perca”, conta Albagli.
*Fonte: Tribuna da Bahia em 30/07/2010.